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Nutrição e educação: uma combinação vencedora

Em El Salvador, programas de alimentação escolar sustentáveis melhoram os hábitos alimentares de comunidades inteiras

Brasília, 1 de abril de 2022 – Há alguns anos, a cantina escolar de Vanesa Cárcamo vendia apenas bebidas muito açucaradas, sanduíches cheios de gordura saturada e salgadinhos com alto teor de sal e poucos nutrientes. Vanesa, como todos os estudantes do Complexo Educacional Cantón San Isidro, em Izalco, El Salvador, não via o problema: afinal, a comida era saborosa. No entanto, eles não percebiam o quão prejudicial era aquela alimentação para sua saúde e seu futuro. “Antes não tínhamos uma alimentação saudável, focada na nossa nutrição”, lembra Vanesa, de 17 anos. “Não entendíamos o efeito da comida em nosso corpo e não sabíamos que ‘junk food’ era ruim para nós e nossa saúde”.

Mas essa realidade mudou. A cantina escolar agora serve a todos os estudantes, dos 4 aos 18 anos, refeições saudáveis ​​e nutritivas confeccionadas com produtos locais, como legumes e frutas. Alguns dos ingredientes vêm até da horta da escola, cuidada pelos estudantes. A maior mudança é que todos estão cientes da diferença entre alimentos saudáveis ​​e não saudáveis ​​e se esforçam para manter uma dieta nutritiva. E o que causou essa transformação?

Estudantes na escola Cantón San Isidro, em El Salvador. Crédito: Andrea Galdames/FAO El Salvador

Educação alimentar e nutricional

Em 2014, a realidade começou a mudar para Vanesa e os outros 1.500 estudantes do Complexo Educacional Cantón San Isidro quando passaram a receber apoio da FAO e da Cooperação FAO-Brasil. Esta aliança, executada no âmbito da Cooperação Sul-Sul e Triangular, desenvolveu a iniciativa das Escolas Sustentáveis ​​em países da América do Latina e Caribe.

Depois de destacar que em El Salvador 38% dos estudantes dos primeiros níveis estão acima do peso ou obesos, Diego Recalde, Representante da FAO no país, explica a importância das Escolas Sustentáveis: “Em El Salvador temos trabalhado em conjunto com a Cooperação Brasil-FAO e o Ministério da Educação para fortalecer os programas de alimentação escolar por meio da capacitação de professores, estudantes e assistência técnica para formulação de políticas (Lei de Alimentação Escolar)”, destaca.

A iniciativa visa estimular a participação das comunidades locais, educar os jovens sobre alimentação e nutrição, oferecer cardápios saudáveis, utilizar hortas escolares como ferramentas educativas e adquirir ingredientes de agricultores familiares locais. O Complexo Educacional Cantón San Isidro também selecionou vários estudantes para se tornarem embaixadores de hábitos alimentares saudáveis, como parte da iniciativa “Jovens Facilitadores da Nutrição e da Segurança Alimentar”, para ajudar a difundir a mensagem entre seus pares. Além disso, a horta escolar tornou-se uma sala de aula viva para o aprendizado prático, captando a atenção de estudantes, pais e professores.

Vanesa confirma: “É muito importante ter essas questões de alimentação e nutrição escolar no currículo. Agora temos clareza sobre o que devemos e não devemos comer no dia a dia e isso é um conhecimento para a vida”, afirma. “Se este projeto não tivesse sido lançado, eu nunca teria começado a comer de forma saudável.

A estudante Vanesa Cárcamo (no centro) com colegas em atividade de educação alimentar e nutricional

Uma comunidade saudável

O diretor da escola, Manuel Guerrero, fala sobre a diferença que essas mudanças fizeram na saúde de seus estudantes. Sua escola tornou-se um modelo de boas práticas alimentares e nutricionais e uma referência nacional que mostra os benefícios da metodologia da iniciativa Escolas Sustentáveis: “Nossos estudantes mudaram de atitude em relação à alimentação. Eles aprenderam a distinguir entre boa e má nutrição”, comenta, acrescentando que isso lhes permitiu escolher o tipo de comida que comem não apenas na escola, mas também em casa com suas famílias. Alguns pais também ajudam a cuidar das hortas escolares, envolvendo toda a família no fomento de hábitos saudáveis. Graças à iniciativa das hortas escolares, Manuel conta que há “maior frequência das crianças na escola, maior participação das famílias e maior interesse dos estudantes”.

Aliás, usando o conhecimento que aprendeu na horta da escola, Vanesa também criou uma horta em casa. “Fizemos uma horta em casa e nossa alimentação mudou muito. A horta é vital para nós, e é disso que eu mais gosto. Nós comemos muitos vegetais que nós mesmos cultivamos.”

Análise de capacidade

Em 2020, a FAO apoiou um processo nacional para analisar os pontos fortes e os desafios para que a educação alimentar nas escolas seja realizada de forma eficaz. O exercício reuniu mais de 50 representantes de instituições governamentais, educadores e pais, que validaram uma estratégia nacional de desenvolvimento de capacidades. Espera-se que esta estratégia seja o roteiro para que os diferentes atores do país congreguem esforços de forma coerente e coordenada para uma melhor educação alimentar para todos os estudantes salvadorenhos.

Uma economia local saudável

Uma parte importante da iniciativa Escolas Sustentáveis ​​é incentivar as escolas a comprar produtos frescos de agricultores familiares locais. Qualquer pessoa pode se inscrever como fornecedor, incluindo pais, associações de agricultores e cooperativas locais. Comprar diretamente de agricultores familiares promove o desenvolvimento local e cria mercado para pequenos produtores.

Alimentação escolar melhorada

Atualmente existem 450 Escolas Sustentáveis ​​em El Salvador, e Vanesa é um dos 148.066 estudantes que se beneficiaram desta iniciativa. Como iniciativa de Cooperação Sul-Sul e Triangular, a metodologia Escolas Sustentáveis ​​foi desenvolvida pela Cooperação FAO-Brasil, por meio do projeto Consolidação de Programas de Alimentação Escolar na América Latina e Caribe. Essa iniciativa é implementada pela Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (ABC/MRE), pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE/MEC) e pela FAO.

Segundo Najla Veloso, coordenadora do projeto, a implementação da metodologia fortaleceu a política nacional de alimentação escolar e melhorou “a educação e a saúde das crianças em mais de 23 mil escolas em 13 países da América Latina e Caribe, oferecendo melhores condições de aprendizagem, maior permanência nas escolas e garantia do direito humano à alimentação adequada para 1,6 milhão de estudantes”.

As escolas não são apenas um lugar de aprendizagem de disciplinas acadêmicas, mas também de habilidades para a vida. São um lugar perfeito para promover a educação sobre dietas nutritivas, segurança alimentar e saúde, ajudando as crianças a se prepararem para o futuro.

Conteúdo produzido pela equipe do projeto Consolidação de Programas de Alimentação Escolar na América Latina e no Caribe, publicado originalmente no site FAO Stories.