Iniciativa de intercâmbio de experiências entre gestores e especialistas foi promovida pela Cooperação Brasil-FAO em conjunto com os países membros da RAES.
Paulo Beraldo
Brasília, Brasil, 25 de junho de 2026 – Um total de 1.566 profissionais da América Latina fortaleceram suas capacidades sobre programas de alimentação escolar após concluir o “Ciclo de Intercâmbios 2026: Alimentação escolar para o fortalecimento de sistemas agroalimentares sustentáveis”, iniciativa impulsionada pela Rede de Alimentação Escolar Sustentável (RAES). Os participantes destacaram que a alimentação escolar é uma política pública estratégica com impactos em saúde, nutrição e desenvolvimento rural, e ressaltaram o valor do intercâmbio regional para fortalecer sua implementação.
O ciclo reuniu participantes de 13 países: Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai. A atividade ocorreu entre 11 de maio e 25 de junho, com duração total de 60 horas na modalidade virtual, complementada por encontros semanais de intercâmbio para esclarecer dúvidas, debater conteúdos e realizar dinâmicas de aprendizagem colaborativa. Também contou com uma plataforma desenvolvida pela RAES, com materiais didáticos disponíveis aos estudantes e o acompanhamento de uma tutora.

Ao longo do ciclo, foram apresentadas mais de 12 experiências regionais e nacionais voltadas ao fortalecimento dos programas de alimentação escolar (PAE), o que permitiu compartilhar avanços, lições aprendidas e soluções práticas implementadas em diferentes contextos da América Latina. Entre os principais temas abordados destacaram-se a alimentação escolar como política pública integrada, a governança intersetorial, a educação alimentar e nutricional, a promoção de dietas saudáveis e sustentáveis, as compras públicas da agricultura familiar, a articulação com os sistemas agroalimentares locais e o uso da comunicação como ferramenta para promover melhores hábitos alimentares.
A formação foi orientada ao fortalecimento de conhecimentos para o desenho, implementação e aprimoramento dos programas de alimentação escolar, enfatizando sua articulação com os sistemas agroalimentares. Participaram gestores de políticas públicas, nutricionistas e técnicos de diferentes setores vinculados à alimentação escolar, incluindo Educação, Agricultura, Saúde, Nutrição, Economia, Desenvolvimento Social e Cooperação, entre outros. Também participaram profissionais interessados no tema nos países e vinculados a programas no nível nacional ou local. Os participantes estão principalmente ligados a temas como compras públicas, educação alimentar e nutricional, sustentabilidade ambiental, gênero e juventude.
A RAES é uma iniciativa de cooperação Sul-Sul trilateral em alimentação escolar promovida pelo Governo do Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), junto com países membros da região, tendo a Secretaria Executiva sob responsabilidade da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Atualmente, a Rede é composta por 18 países.
Durante o ciclo, os participantes discutiram o papel estratégico da alimentação escolar dentro dos sistemas agroalimentares e das políticas de segurança alimentar e nutricional. Na América Latina e no Caribe, cerca de 80 milhões de estudantes são atendidos por programas de alimentação escolar. Também foram abordados temas como governança intersetorial, marcos normativos, mecanismos de compras públicas que facilitam a participação da agricultura familiar e foram elaboradas propostas de melhoria dos PAE adaptadas à realidade de cada país.
No encerramento do ciclo, Renata Mainenti, coordenadora substituta do Programa Nacional de Alimentação Escolar do Brasil, executado pelo FNDE, afirmou que o ciclo foi uma oportunidade para fortalecer capacidades e gerar propostas voltadas ao aprimoramento da alimentação escolar em cada país participante. “Sabemos que não existe um programa perfeito ou definitivo. A alimentação escolar é uma política pública em constante evolução para responder às novas dinâmicas sociais, econômicas, ambientais e tecnológicas”.
Por sua vez, a ABC/MRE, por meio da coordenadora substituta da Cooperação Sul-Sul Trilateral Brasil-FAO, Mariana Falcão, afirmou que essas atividades consolidam a cooperação técnica internacional ao refletirem seus princípios e diretrizes, pois fortalecem a participação e a horizontalidade das ações, além de garantir a soberania dos países na promoção de seus avanços. “Este ciclo reuniu 1.566 profissionais de 13 países, o que reflete o crescente interesse da região em fortalecer a alimentação escolar”.
Najla Veloso, especialista sênior em alimentação escolar da FAO e secretária executiva da RAES, afirmou que uma das tarefas mais importantes dessa cooperação para fortalecer a alimentação escolar nos países é oferecer aos profissionais oportunidades de conhecer os avanços construídos na região de forma simples, prática e concreta. “Além disso, é importante conhecer o que pensam e defendem os especialistas sobre cada tema discutido. Esses intercâmbios conseguem colocar em diálogo teoria e prática, gerando conhecimentos capazes de transformar realidades, melhorar os diferentes componentes da alimentação escolar e impactar positivamente os sistemas agroalimentares locais”.
Desde a Guatemala, Regina Sosa, assessora em acompanhamento nutricional da Direção Geral de Fortalecimento da Comunidade Educativa, agradeceu à RAES e à Cooperação Sul-Sul Trilateral Brasil-FAO por esta atividade que permitiu fortalecer conhecimentos e oferecer ferramentas a equipes técnicas, administrativas e atores-chave dos PAE. “Isso permite que, como região, avancemos rumo a programas mais sustentáveis, inclusivos e articulados com os sistemas agroalimentares”, disse.
Desde o início do trabalho da Cooperação Sul-Sul Trilateral Brasil-FAO em alimentação escolar em 2009, mais de 42 mil profissionais da região já foram capacitados.
Depoimentos
Entre os diversos depoimentos, Claudia Suárez, docente da Escola de Nutrição da Universidade da República do Uruguai, afirmou que a experiência reafirmou que a alimentação escolar deve ser considerada uma política pública estratégica e que não se limita ao fornecimento de alimentos. “Os conhecimentos adquiridos me permitem ter maiores fundamentos técnicos para acompanhar melhor a implementação da metodologia de Escolas Sustentáveis no Uruguai”, acrescentou.
Gabriela Costa, nutricionista do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição do Paraguai, afirmou que pôde aprender e compartilhar desafios com profissionais de diferentes países, o que enriquece a visão sobre o programa local. Laura Mena, chefe do departamento de alimentação e nutrição responsável pela execução do programa de alimentação escolar do Ministério da Educação da Costa Rica, afirmou que o que mais chamou sua atenção foi a importância de vincular a agricultura familiar local à alimentação escolar, melhorando a qualidade dos alimentos oferecidos e promovendo o desenvolvimento territorial.
Adriana Zubieta, chefe da Unidade de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e Esportes da Bolívia, afirmou que a alimentação escolar é a política “com maior capacidade de gerar impactos simultâneos em saúde, nutrição e desenvolvimento rural”. “A escola é o melhor espaço para formar hábitos capazes de transformar a vida de estudantes, famílias e comunidades”.
Mais sobre esse tema:
Agenda Regional d RAES: Por uma alimentação escolar sustentável na América Latina e Caribe
https://www.youtube.com/watch?v=rx86Ju-HpD8